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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Estudos feitos com embrião são só uma "aposta", diz biólogo

Estudos feitos com embrião são só uma "aposta", diz biólogo

Com a anuência do Supremo Tribunal Federal, o Brasil pode agora, enfim, "apostar" nos estudos com células-tronco embrionárias. Essa é perspectiva para grupos de pesquisa nacionais de biologia molecular, diz o neurocientista Stevens Rehen, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Ele é um dos dois pesquisadores que tentam, dentro do país, cultivar células-tronco retiradas de embriões humanos.

Não há certeza ainda, porém, de que elas renderão novas terapias. "É uma aposta, mas uma aposta fundamentada. E pode ser que todo mundo dê com os burros n'água daqui a alguns anos", disse o pesquisador à Folha. De acordo com Rehen, depois de o Supremo ter validado a Lei de Biossegurança, o que vem agora chega até a "assustar", por ser muito novo.

"Mas a ciência avança assim. Que bom que podemos apostar nisso. O Brasil sempre fica a reboque, como ocorreu com o Projeto Genoma, quando entramos tarde no processo", diz o cientista, que calcula que o Brasil terá sua linhagem de células próprias em até dois anos.

O fato de as pesquisas com células embrionárias estarem liberadas para embriões congelados antes de 2005 traz um certo alívio, mas está muito longe de resolver o problema. Segundo o cientista carioca, esse material congelado há alguns anos, "falando friamente", não é o ideal. "Não quer dizer que seja impossível [retirar as células desses embriões], mas o desafio passa a ser maior".

Além das complicações intramuros na bancada dos laboratórios, diz Rehen, no campo político o Brasil tem de escolher um modelo estratégico que não desperdice recursos financeiros para gerar os insumos de pesquisa necessários.

"Não precisamos de 50 laboratórios no Brasil produzindo células-tronco embrionárias. Se tivermos um ou dois que gerem linhagens celulares suficientes para pesquisadores de qualquer parte do Brasil está bom", afirma. "Não dá para querer gerar um cultura de célula em cada esquina."

Em paralelo à ação orquestrada do governo, o neurocientista da UFRJ também defende uma postura diferente da própria comunidade científica.

Gente em falta

Para Rehen, os cientistas brasileiros precisam colaborar mais. "Não tem de ter sonegação de informação científica. É o momento de abrirmos as portas do laboratório para que mais pessoas possam trabalhar. Se não houver um esforço coletivo, nada vai avançar", diz.

O número relativamente reduzido de cientistas atualmente no Brasil, apesar de muitos dos biólogos serem bem qualificados, é outro gargalo que precisa ser resolvido, diz o neurocientista. Rehen trabalha especificamente tentando fazer com que o material celular embrionário possa ser diferenciado em neurônios. As células dele vieram dos EUA.

"O mais importante agora, também, é formar mais gente. Nem adianta fazer como a Califórnia, investir até US$ 3 bilhões em projetos de pesquisa, porque não teremos grupos para usar todos esses recursos".

Segundo Rehen, os R$ 21 milhões anunciados pelo governo federal para todos os estudos com células-tronco, inclusive as adultas, é razoável. "A idéia do trabalho em rede é boa porque permite investir com profissionalismo", diz.

Mesmo ainda sem muitos grupos envolvidos diretamente com as células-tronco embrionárias --projetos de ponta existem em locais como a UFRJ, USP (Universidade de São Paulo), Unesp (Universidade Estadual Paulista) e UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)- o Brasil, segundo Rehen, não pode ser rotulado como atrasado. "Principalmente se formos comparar com todo o hemisfério Sul, com exceção da Austrália", diz.

O atraso em relação aos EUA e a alguns países da Europa, como a Inglaterra, é histórico, afirma o pesquisador.
No Reino Unido, por exemplo, a discussão nos tribunais também está mais avançada. A Corte, lá, acaba de liberar o uso de embriões híbridos, que têm material humano e de vaca. "Aqui nós estamos discutindo coisas anteriores ainda", diz Rehen, que já antecipa uma dor de cabeça legal que pode surgir no futuro para os ministros do STF resolverem.

"Imagine se nessas pesquisas com células reprogramáveis um material de pele se transformar em um espermatozóide. Será possível gerar um filho sem que o pai saiba, ou seja, a partir da pele de alguém."

No caso brasileiro, Rehen não tem dúvida de que o componente religioso e conservador surgiu nos debates do STF pois no imaginário coletivo existe uma ligação entre as células-tronco e o aborto. "Diretamente, não tem nada a ver."

Para resolver isso, diz o cientista da UFRJ, a solução é aumentar a cultura científica da população. "É mais uma questão de formação básica mesmo, que precisa melhorar."

Cientistas criam molécula que amadurece células-tronco

Cientistas criam molécula que amadurece células-tronco

Uma descoberta acidental durante outra experiência levou os pesquisadores do centro médico Southwestern, da Universidade do Texas, à criação de uma pequena molécula que estimula o amadurecimento de células-tronco do sistema nervoso. A informação é da revista "Nature Chemical Biology".

Isso pode permitir no futuro o cultivo das células-tronco nervosas de uma pessoa fora do corpo, o estímulo a seu amadurecimento, e a reimplantação como células que funcionem para o tratamento de várias doenças, segundo os pesquisadores.

"Isto fornece um ponto de partida crítico para a medicina neurodegenerativa e a quimioterapia do câncer cerebral", disse Jenny Hsieh, professora de biologia molecular e autora do estudo. A criação da molécula permitiu que os cientistas revelassem alguns dos passos bioquímicos que ocorrem quando as células dos nervos amadurecem.

Os cientistas iniciaram este projeto como resultado de um estudo separado onde examinaram 147 mil compostos para ver qual era capaz estimular as células-tronco cultivadas de embriões de roedores, para que se desenvolvessem como células cardíacas.

Inesperadamente, cinco moléculas estimularam as células-tronco para que se transformassem em formas parecidas a células nervosas. Depois, os pesquisadores criaram uma variação destas moléculas em um novo composto chamado Isx-9.

Este composto foi mais fácil de usar que seus semelhantes descobertos inicialmente, porque funcionou em uma concentração muito mais baixa e também se diluiu mais facilmente em água.

"Em teoria, esta molécula poderia causar o amadurecimento pleno, ao ponto que as novas células nervosas poderiam gerar os sinais elétricos necessários para o funcionamento completo", afirma a pesquisadora.

Localização

As células-tronco nervosas se encontram em grupos dispersos em várias áreas do cérebro. Estas células são capazes de se transformar em vários tipos diferentes de células, não todas nervosas.

No estudo, as células-tronco nervosas de roedores tomados de uma área do cérebro chamada hipocampo foram cultivadas com Isx-9. Estas células se aglomeraram e desenvolveram finos apêndices, o que ocorre tipicamente quando se produzem células nervosas em um cultivo.

O Isx-9 impediu que essas células-tronco se desenvolvessem em outros tipos de células não nervosas e foi mais potente que outras substâncias neurogênicas na estimulação do desenvolvimento de células nervosas. A molécula gerou de duas a três vezes mais células nervosas e outros compostos que se usam comumente.

Alemão facilita obtenção de células "éticas"

Alemão facilita obtenção de células "éticas"

Cientistas alemães acabam de simplificar a receita para a obtenção das chamadas células pluripotentes induzidas, as ansiadas células-tronco equivalentes às embrionárias que podem ser produzidas sem o uso de embriões.

Em estudo publicado on-line ontem na revista "Nature", eles mostram que é possível induzir esse comportamento usando apenas metade dos genes necessários --e eliminando o risco de câncer.

As células-tronco de pluripotência induzida (iPS) são criadas ao se injetar em uma célula comum quatro genes. No entanto, um deles, o c-Myc, traz risco potencial aos pacientes, por estar envolvido em tumores.

O grupo liderado por Hans Schöler, do Instituto Max Planck de Biomedicina, descobriu como induzir pluripotência em células de camundongo usando apenas dois genes.

O problema é que as células transformadas pelo grupo são células-tronco adultas neurais, elas mesmas difíceis de obter. O grupo acha, não obstante, que o estudo ajudará a acelerar o desenvolvimento de terapias em humanos, pois torna a técnica mais fácil e segura.